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A Favorita: Liberdade de Criação encarcera o Direito a Reabilitação

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Por: Elizabeth Misciasci
Mais cruéis e desumanas que a permanência carcerária feminina e a escassez gritante de recursos a que estão submetidos os agentes prisionais e profissionais ativos do sistema, é a forma pela qual se tem retratado o assunto em A Favorita.

Mesmo em se tratando de uma ficção, o tema vem sendo explorado de forma abrangente, porém equivocada e absurdamente infeliz. Não se atenta aqui, a produção, interpretação ou Estado cenográfico. O que ocorre, é que o assunto é extenso dentro de uma fragilidade irretratável.

Óbvio, que muitas teledramaturgias já encarceraram suas protagonistas e antagonistas, no entanto, A Favorita, centralizou a história em um primeiro crime, e deu continuidade ao enredo, tendo como pano de fundo da trama, uma egressa, após dezoito anos no cárcere, transformada em uma doente e perigosa reincidente criminosa em potencial.

Há muito, saiu de cena a motivação para polemicas e discussões, alçando um vôo lamentável a uma irrealidade perversa. A partir do momento que se expõem divisões comportamentais entre o fictício e o verídico, necessário se faz a coerência mínima para um horário nobre e influenciador, pois quem acompanha a obra, nem sempre tem a menor noção da dosagem imaginária usada.

É perfeito que se queira inovar, bem como é importante à abordagem do cotidiano, porém, o que não se pode ignorar é que muitas pessoas são sugestionadas e norteadas pelo que estão vendo sim e indubitavelmente, acabam declinadas a acreditar no contexto.

Na vida real, os papéis são limitados, os personagens reais, e o sofrimento não esta na maquiagem. Um ensaio sobre o desconhecido, não pode servir para massacrar um tema da vida real tão doloroso, arrombando ainda mais o abismo dos excluídos.

Todos sabem, a teledramaturgia pode ser a estrada que vai do arco íris ao infinito, mas a partir do momento, em que se usa um referencial dando-lhe vida real, uniformizando-a, nomeando-a e fazendo alusão ao que é fato, o porvir seqüencial, já não pode ser fantasia, nem tão pouco tratado como tal.

Assim sendo, justo o é que a Sifuspesp (Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo) através de seu Presidente, João Rinaldo Machado reagir com o repudio, uma vez que este se alastra pelos servidores penitenciários.
Já o Presidente da Sindasp (Sindicato dos Agentes de Segurança Penitenciária do Estado de São Paulo) Cícero Sarnei dos Santos, fez questão de frisar:- ‘Mesmo sendo personagem de ficção, a Zezé é um lixo para nós. Está explícito que é um achincalhe direto à categoria. Mandei ofício ao Lula, para ele interceder. A Globo precisa reavaliar a obra, pois ela está sendo muito prejudicial para nós’.

Não pode se negar o fato! As inúmeras dificuldades de atuação nesta profissão que também é de risco existem, bem como a baixa remuneração e pesada carga horária, mas isso não pode servir de alicerce concreto para se retratar de forma abrangente, diretores e agentes prisionais.

A personagem que ilustra a AEVP (Agentes de Escolta e Vigilância Penitenciária) ou ASP (Agentes de Segurança Penitenciária) Zezé, interpretada pela atriz Docimar Moreyra faz alusão a uma funcionária do sistema prisional paulista. Isso pode ser conferido pela fidelidade do Uniforme, com a respectiva bandeira do Estado no braço e o Brasão no peito. No entanto, tal foco, não impediu que a classe na sua grande maioria, se sentisse lamentavelmente lesada nas mais diversas regiões do País.

-‘Não se trata de intervirmos na criação do autor, mas sim na forma que ele reproduz um limitado entendimento’. – Argumenta M.A.P. agente prisional da Penitenciária Feminina da Capital São Paulo, conhecida como P.F.C.

-‘Trabalhei por trinta anos no Sistema, sei na pele o sentido da discriminação e as suadas conquistas diárias, acho um absurdo como a falta de conhecimento, pode ser transformada e inventada de qualquer jeito’. – Desabafa B.C. ex-diretora de reabilitação.

-‘O problema é que gravaram aqui na Sant’Ana apenas a saída de Flora, não houve o acesso à parte interna da Penitenciária, mas esta muito claro que se trata das Penitenciárias de São Paulo e o autor deveria ter feito no mínimo uns dias de laboratório, mas pecou. Não estamos revoltados com o regionalismo nem com a história, mas sim com o despreparo e a afronta. Todos sabem que se trata de novela, mas vamos e convenhamos, há um número grande de pessoas que acreditam, tanto é que neste final de semana, na fila da visita, havia gente procurando a Zezé’… -Relata S.G. da P.F.S. que destaca ainda a indignação das reeducandas (detentas).

Se por um lado, o que não é nem de longe parecido com a realidade, como as constantes e continuadas cenas de corrupção, torturas, uso interno de aparelho celular, visitas liberadas e descuidadas, sem preocupação com existentes normas disciplinares e segurança desfilam em horário nobre, por outro lado, o repudio da massa carcerária feminina, também ecoa.

Entre – grades, onde as frias muralhas dividem o mundo ao meio também há vida. Neste Universo paralelo, mulheres nascem, se transformam, vivem ou apenas sobrevivem. Mesmo tolhida a liberdade de ir e vir pela condição de pessoa presa, não impede que demonstrem indignação e tristeza diante da tela de tv. Assim, seja por meio dos familiares ou por cartas, lamentam por serem tão pouco lembradas e quando mencionadas, nada aparentam do que são, o que fazem e o que esperam.

Descrevendo a impotente sensação ora imposta, se definem como mais um rótulo que as tornam personagens da vida real em decomposição. Retratadas como ‘irrecuperáveis’ por serem perigosas, ficam á sombra de uma fantasiosa e degradante história, que sem noção, as excluem ainda mais da sociedade, direcionando-as assim, a profundeza do incerto futuro.

Oras, mas se tratando de ficção, onde raras foram às cenas que sequer se aproximaram ao cotidiano de um presídio feminino, A Favorita, não deveria ser objeto de contestações, vindo a prevalecer incômodo ou preocupações. Porém, a problemática esta justamente no desconhecido, que retratado de forma insistentemente fantasiosa, vem destruindo anos de trabalhos desenvolvidos nos cárceres, inculcando nas pessoas, novamente o preconceito, o medo, a descrença e a mais temida: – a discriminação.

Como fazer chegar a milhares de centenas de pessoas, que não existem mais solitárias e sim o RDD? -Como mostrar que quem se beneficia de indulto, (Diva- Giulia Gam) esta em progressão de regime, portanto uniforme branco e verde, já que se trata de São Paulo. -Como explicar o R.O. pincelado tão diferente na dramaturgia. -Os alimentos em saco como lavagem. -A explícita e surreal afinidade de uma ex reeducanda com uma funcionária, já que o ‘proceder’ não permite tal comportamento, enquanto encarcerada. -A morte súbita de uma interna, denotando a omissão de socorro, a passividade e a tolerância (que é inaceitável na realidade carcerária) das demais companheiras de cela. -O diálogo no horário do sol entre apenadas, que jamais é cerceado. -Visitantes freqüentes e variados no parlatório, em horários diversos e sem ter nome em rol de visitas. -Uma ex-apenada, adentrando ala interna, com a conivência funcional. -A alcagüete na frente de todas, o que é postura vetada em cadeia e assim vai… Já que é ficção…

Talvez se não fosse um espelho que tivesse como foco principal um assunto tão pouco divulgado, no entanto dramático e real, como a criminalidade feminina, ou que esta não insistisse em mostrar um cárcere generalizado, repleto de pessoas que sobrevivem apenas penteando os cabelos no pátio, tomadas por completo ócio ou na tranca pesada, certamente seria uma porta de esperança que se abriria para muitas…

No entanto, as sobras da trama, se espalham, enquanto se defende a liberdade de criação do autor, se encarcera o respeito para as que um dia cumpriram suas penas e lutam pelo resgate social e familiar.
A mais um lamentável exemplo, onde ‘se acomoda’ a reincidência, esta as quatro protagonistas que passaram pelo cárcere, até a que nunca delinqüiu, na teledramaturgia, A Favorita (que seria a personagem de Claudia Raia, Donatella) ira delinqüir.

Ou seja, a partir do momento, em que sem opção e contrariada, sai de um Presídio de posse de documentos falsos, usando a identidade de Diva ou Rosana (Giulia Gam) atestando a vulnerabilidade para o crime. O mesmo acontece com Diva, após confidenciar que não quer sair da prisão, estando com os dias de vida contados e cedendo a vez para a companheira partir, se evade da penitenciária também com a ‘ajuda’ da D.G. e até o momento, o que se sabe é que irá continuar no crime, juntamente com o político Romildo Rosa.

Como se a insanidade de Flora (Patrícia Pillar) não fosse o bastante, para definir a silhueta de uma mulher perigosa, e do crime, que jamais seria reabilitada, vindo a reincidir sabe-se lá por quantas vezes… Ainda há a personagem Cilene vivida por Elisangela, tendo como fonte de renda a exploração sexual de mulheres, que mesmo passando uma noite na cadeia, cometeu o perjúrio para ‘quem sabe’… Esconder o seqüestro do filho de Donatella.

Assim, evidente que o autor ainda não abriu nenhum precedente para as que um dia passaram uma dolorosa estádia nos cárceres e acreditando estar gerando polêmicas e aumentando a audiência, não percebe a nova pena que esta impondo, e o quanto vêm afetando vidas, que por alguma fatalidade, foram aprisionadas.

-‘A verdade é que as pessoas acreditam no que assistem, tanto é que copiam cortes de cabelo, modelitos de vestidos, enfim. Há até atores que apanham na rua, porque as pessoas nem sempre sabem diferenciar vida real de novela. Passei oito anos na prisão, quando sai, há um ano e meio atrás, minha filha havia crescido, e o processo de aproximação é diário e lento. Ela esta com doze anos e tenho evitado ligar a TV para que ela não se deixe influenciar. Sabe, quando foi revelada a assassina, e a frieza dela deu problemas sérios em casa… Agora imagina se no seio familiar é assim’… -Lamenta Leila Young.

Uma coisa é certa, um contexto ilusório, gerado à custa de situações distorcidas e desmoralizadoras, não é um quadro irreversível. Podendo abrir os braços para uma possibilidade infinita de situações, onde esta realidade reside no poder do criador em tornar tudo possível, ainda existe o tempo, do ‘a mais’ e ‘na medida exata’ ou quiçá, de reescrever essa história, onde o somar ponto, consiste no consciente… Em se contar outro conto.

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